Lições de uma inversão a que se pode chamar efeito/causa

el colectivo LGTBI sufre la precarización promovida por el neoliberalismo contemporáneo de formas específicas, pero en ningún caso en menor medida que el resto de la población. Sobran ejemplos de los impactos nocivos de la mercantilización de lo LGTBI y de la estrecha dependencia del colectivo respecto al mercado. Miles de lesbianas, bisexuales, gays y trans que han emigrado a las grandes ciudades en busca de una vida más libre se encuentran atrapados en una jungla de alquileres inflados por empresas como Idealista, una de las patrocinadoras del Orgullo de Madrid. Hasta hace relativamente poco, las personas LGTBI estaban atadas a barrios como Chueca, los espacios con menos homofobia dentro de las grandes ciudades. El grave proceso de gentrificación que ha sufrido Chueca muestra la vulnerabilidad a la que nos exponemos como colectivo al dejar que nuestros espacios de socialización y nuestra comunidad dependa tan directamente de las dinámicas canibalistas del mercado –alegremente explotadas por empresas gayfriendly. Otra compañía que intenta lavar su imagen en las aguas del Orgullo es Air Europa, que además de enriquecer a sus accionistas acelerando el cambio climático, se ha lucrado poniéndose al servicio del Estado para deportar a migrantes residentes en nuestro país.

Pablo Castaño (d'aqui)

Revolução

A ideia é revolucionária. O automóvel é revolucionário. O detergente para a roupa é revolucionário. Os produtos para o cuidado da pele são revolucionários. Os champôs para a queda do cabelo também. Os produtos financeiros são revolucionários. Os bancos são revolucionários. As conferências, palestras, seminários e workshops são revolucionários. O último disco de Lady Gaga também é revolucionário. Aquele canal de TV é revolucionário. Qualquer discurso de Marcelo Rebelo de Sousa é revolucionário. O Papa Francisco é absolutamente revolucionário. A revolução é revolucionária. A revolução é tão revolucionária como o mais revolucionário dos produtos de marca branca do Pingo Doce.

Rui Manuel Amaral

Gabriel vende a sua biblioteca. Diz que está farto de literatura e que quer fazer dinheiro. A decisão deve ser simbólica, suponho: vender os seus livros não o vai tirar de muitas dificuldades. Compreendo que a sua situação nada tem de brilhante e que empregue uma porção considerável do seu tempo e da sua energia verbal a esbanjá-la. Trinta e quatro anos, inteligentíssimo, pouco dinheiro, poucas possibilidades estabelecidas de progresso. Conhece os meandros ocultos da vida prática com uma extrema lucidez e ao mesmo tempo é radicalmente inapto para a vida prática. Uma dessas pessoas – eu tenho-me por outra – que com os mesmos defeitos mas com menos qualidades teria funcionado melhor.
Jaime Gil de Biedma, o Retrato do artista em 1956

O ADMIRÁVEL CASO DE UMA FUNDAÇÃO PARA DESENVOLVIMENTO SOCIAL E CULTURAL (SOMBRAS DOS GESTOS DAS TIAS DO LOBO ANTUNES) QUE TRABALHANDO COM CENTENAS DE MILHÕES DE EUROS APENAS APLICAVA 2,5% PARA ISSO E AINDA AJUDAVA BANCOS (OU ENTÃO: O SURPREENDENTE CASO DOS BANCOS QUE QUERIAM COM FUNDAÇÕES TAPAR O CU ÀS ACÇÕES DAS SUAS IMPRÓPRIAS CONFRARIAS, TANTO FINANCEIRAS COMO EMPRESARIAIS)



ouvir a comissão parlamentar a Berardo, revela-se pouco mais de uma hora decorrida uma verdadeira mina a céu aberto, um raio-x tremendo como quem escancara a porta de um cofre: maravilhosos administradores da caixa bajuladíssimos por champaulimad, empresários de topo a promover negócios de faca cravada nas costas dos outros, decisões políticas que dizem respeito ao estado de todos, resolvidas e reunidas nas mãos das grandes empresas, das que mais do estado mamam e menos impostos pagam. Resumindo: o estado nas poucas mãos outras, ou deles descendentes, de barbudos tempos simbolicamente esfumados a partir de 74, mas que com o passar dos meses e dos anos foram sendo raspados até ao osso dos tempos que correm. Electricidades, saúdes, educações, construtoras, cimenteiras, cortiças, bancos confortáveis para os poucos que da sua sede, propagandísticos, vão fazendo e aliciando as tão tenrinhas massas, que pecam apenas por serem muito mais moldáveis do que estúpidas, como muita gente quer crer. A teia é vasta e a promiscuidade dissemina-se pelos meios que nos entram pelos olhos, hipnóticos e cada vez mais aprimorados. O pragmatismo dos fins tem destas coisas, de ténues linhas se tece a armadilha invisível. O que demonstra Joe neste primeiro quarto da audiência é o que ainda não fez as coisas chegar ao auge da acção: os bancos devem ser geridos para financiar e guardar dinheiro, e quem os gere deve ser auscultado com o olhar de todos cravado nos seus gestos. Devem ser transparentes como ar ou que fique bem claro: arder como um inferno. E no que a grandes empresas diz respeito, devem ser do estado, ponto. Só falta verdadeira vontade ou as pessoas certas para sanar toda a badalhoquice que vigora servente dos interesses das gerências a necessitar de limites. Criminalizar políticos, banqueiros, gestores, analistas financeiros, advogados que ajudem a beneficiar poucos para prejudicar os interesses de todos, e mudar a lei, actualizá-la de um modo ético, cagando nas leis internacionais pautadas lá como aqui, pelos chamados interesses da economia de mercado. Falhas na lei como a personalidade jurídica das empresas e o desligamento dos responsáveis destas por incumprimento, como acontece com Berardo mais todos os empresários que conheço incumpridores, garantias cachimbo de magritte, que não recaem sobre o património mas sobre os títulos deste, mais um exemplo da multiplicação do dinheiro que faz da economia uma enorme barafunda psicótica, das causas às respostas, passando pelas consequências, tudo isto tem de mudar. E assim se percebe porque vale tudo, quando levado à praça pública, como quem grita fogo para todos o repetiram até à estridência, tudo para denegrir a mais mínima ameaça, seja ela apenas muito fumo ou uma mera fogueira. Temos pois o Berardo, que nada tem de inocente, mas é sem dúvida uma bela carne para canhão. Quem sabe o engenheiro Sócrates, mas, acima de tudo, sem pôr as mãos no fogo que não por mim, para me queimar, o verdadeiro exemplo é o de Lula da Silva. A entrelinha de todas estas pontas desconexas diz respeito aos fios que giram e nos fazem girar, tudo em prol de um determinado interesse, ou melhor, de determinados e muitos interesses, que todos juntos fazem o todo, e a linha ténue que tem vindo a unir, cada vez mais simbiótica, a justiça dos tribunais à justiça de pelourinho mediático, queima assim poucos culpados para salvar os muitos que dançar melhor, pois claro.

Es sencillo. Escribir cosas negativas sobre Trump equivale a dinero: lectores. El New York Times ha sumado quinientos mil nuevos suscriptores en línea desde que Trump fue elegido. Por supuesto, alcentrarse en los tuits de Trump, se meten a jugar en la pocilga del presidente. Pero es un negocio. Mira la portada del Times de esta mañana, el 19 de abril. El titular principal dice: “El informe de Mueller evidencia los contactos rusos y el esfuerzo frenético de Trump para frustrar la investigación”. El de una de las dos piezas más abajo pone: “No hay acusación de conspiración criminal ni de obstrucción”. Ahora, la noticia principal, diría yo, es que no le acusen de colusión, ¿no? Aquí está el titular de la otrapieza: “Cultura del caos en la Oval Office”. Vale. Pero, dime, ¿cuántos libros hemos visto ya sobre ese tema? ¿Ocho? Y todos, pan caliente. El libro de Woodward vendió dos millones de ejemplares. Allí hay un mercado, y ese mercado impulsa las noticias porque los periódicos necesitan el dinero.

* e note-se que com Trump os meios de comunicação social, e até os que criticam o boneco a quem se poderia chamar Chucky, parecem mais sensatos do que são, mas responsáveis do que são, mais conscientes, mais. No entanto, com este como com as reivindicações da moda, a massa estica porque rende (ou pelo menos acredita-se que sim: quando a merda não é diarreia parece ouro). Mais que uma consciência espelhada e reflexiva das coisas, temos uma consciência espalhada, espremida, moída como farinha para pão e bolos, cacifas de ração maciinha. Lá fora como aqui, ó desgraçados!

Parábola ecológica


Imaginemos alguém muito, muito, muito gordo. Ou então um alcoólatra ou simplesmente um bêbado, ou uma bêbeda. Ou então… um toxicodependente. Ou um viciado em jogo, ou em postais, em lentilhas. Tudo exemplos que se cristalizam como símbolos de um consumo paradoxal e residualmente mais humano do que absoluta e instintivamente animal.

Para esse alguém deixar de comer, ou de beber, ou de se drogar, ou de jogar, ou de coleccionar – compulsividade demasiado humana – das duas, uma: ou se lhe corta na comida, no álcool, na droga, no jogo, nos postais e nas lentilhas, à força. Ou então, ele mesmo se decide por isso. Imaginemos então qu’esse alguém é a única pessoa no mundo, pois apenas depende de si para tomar as suas atitudes. No final de contas, limpo e macio como um cagalhão acabadinho de chegar ao mar, de uma maneira ou de outra, qual é de facto a modalidade de limpeza mais perlimpimpim?

Pois. As finalidades quando são as mesmas e resultam, são as duas óptimas. Mas quando se dispara, morre uma nuvem e a corrida começa, alguém terá que chegar primeiro, por muito que a competitividade seja uma coisa muito, muito feia.

A comida, o álcool, a droga, o jogo, os postais e as lentilhas ou ficam para outro alguém, ou ficam, pois, para ninguém. Quanto às nuvens, essas, tão depressa morrem como vagarosas nascem. Mas sempre de baixo para cima.

Olhava ele estupefacto para um grande pássaro, assombroso, e não via que ao lado dele mais uns quantos compunham todo aquele corpo como nunca visto. Uns eram as penas, outros eram as rodas. Mas eram todos sombra. Viviam à sombra de uma bananeira que dava morangos e dela, como estacas, colhiam figos.

Bê-á-bá da contra-bicharada


O estabelecimento de sólidos laços com grupos do país, para lá de ser uma condição de nossa segurança, é uma premissa indispensável de todo o projecto de expansão e criação de novos negócios que, se se quiser dar-lhes as maiores garantias de viabilidade, terão de realizar-se mediante a constituição de corporações filipinas. A margem que a legislação do país deixa disponível ao capital estrangeiro numa corporação filipina é, por outra parte, suficientemente folgada para assegurar de facto o controlo ou uma influência decisiva na realização do negócio. O arranque da Salt-Industry of the Philipines e a recentíssima constituição da Basic-Chemicals são uma boa amostra do acerto de uma política de colaboração e aproximação com a qual seria desejável ver bem compenetrados os chefes e o pessoal da Administração em Manila. É preciso levar ao espírito de todos a convicção de que não podemos nem devemos trabalhar sozinhos.


Jaime Gil de Biedma, em Retrato do artista em 1956

While I see that there is nothing wrong in what one does, I see that there is something wrong in what one becomes.

Oscar Wilde, em De profundis