ouvir a comissão
parlamentar a Berardo, revela-se pouco mais de uma hora decorrida uma
verdadeira mina a céu aberto, um raio-x tremendo como quem escancara a porta de
um cofre: maravilhosos administradores da caixa bajuladíssimos por
champaulimad, empresários de topo a promover negócios de faca cravada nas
costas dos outros, decisões políticas que dizem respeito ao estado de todos,
resolvidas e reunidas nas mãos das grandes empresas, das que mais do estado
mamam e menos impostos pagam. Resumindo: o estado nas poucas mãos outras, ou
deles descendentes, de barbudos tempos simbolicamente esfumados a partir de 74,
mas que com o passar dos meses e dos anos foram sendo raspados até ao osso dos
tempos que correm. Electricidades, saúdes, educações, construtoras,
cimenteiras, cortiças, bancos confortáveis para os poucos que da sua sede, propagandísticos,
vão fazendo e aliciando as tão tenrinhas massas, que pecam apenas por serem muito
mais moldáveis do que estúpidas, como muita gente quer crer. A teia é vasta e a
promiscuidade dissemina-se pelos meios que nos entram pelos olhos, hipnóticos e
cada vez mais aprimorados. O pragmatismo dos fins tem destas coisas, de ténues
linhas se tece a armadilha invisível. O que demonstra Joe neste primeiro quarto
da audiência é o que ainda não fez as coisas chegar ao auge da acção: os bancos
devem ser geridos para financiar e guardar dinheiro, e quem os gere deve ser
auscultado com o olhar de todos cravado nos seus gestos. Devem ser
transparentes como ar ou que fique bem claro: arder como um inferno. E no que a
grandes empresas diz respeito, devem ser do estado, ponto. Só falta verdadeira
vontade ou as pessoas certas para sanar toda a badalhoquice que vigora servente
dos interesses das gerências a necessitar de limites. Criminalizar políticos, banqueiros,
gestores, analistas financeiros, advogados que ajudem a beneficiar poucos para
prejudicar os interesses de todos, e mudar a lei, actualizá-la de um modo
ético, cagando nas leis internacionais pautadas lá como aqui, pelos chamados
interesses da economia de mercado. Falhas na lei como a personalidade jurídica
das empresas e o desligamento dos responsáveis destas por incumprimento, como
acontece com Berardo mais todos os empresários que conheço incumpridores,
garantias cachimbo de magritte, que não recaem sobre o património mas sobre os títulos
deste, mais um exemplo da multiplicação do dinheiro que faz da economia uma
enorme barafunda psicótica, das causas às respostas, passando pelas
consequências, tudo isto tem de mudar. E assim se percebe porque vale tudo, quando
levado à praça pública, como quem grita fogo para todos o repetiram até à
estridência, tudo para denegrir a mais mínima ameaça, seja ela apenas muito
fumo ou uma mera fogueira. Temos pois o Berardo, que nada tem de inocente, mas
é sem dúvida uma bela carne para canhão. Quem sabe o engenheiro Sócrates, mas,
acima de tudo, sem pôr as mãos no fogo que não por mim, para me queimar, o
verdadeiro exemplo é o de Lula da Silva. A entrelinha de todas estas pontas
desconexas diz respeito aos fios que giram e nos fazem girar, tudo em prol de
um determinado interesse, ou melhor, de determinados e muitos interesses, que
todos juntos fazem o todo, e a linha ténue que tem vindo a unir, cada vez mais
simbiótica, a justiça dos tribunais à justiça de pelourinho mediático, queima
assim poucos culpados para salvar os muitos que dançar melhor, pois claro.