INCIDENTE CORPORAL




Surpreender o contorno da própria cabeça,

as extremidades do corpo que se ignoram

com simétrico empenho, o grunhido

do ouvido e do pulso num ponto do ar



e nos olhos fechados, assomando-se

na ponta almofadada dos sangues,

o perfil violeta do espectro

obstinado das janelas desistidas.



Uma súbita febre, um desacordo.



Pisar o solo rápido, fluente,

imóvel para os outros; e as suas cavidades

de secretos fragmentos, comovidas

inchando-se por debaixo e pelo corpo.



E estar a ponto de flutuar, ser leve

como um cacho de incontáveis peças

removido por alguém desde fora

que nos suspende entre as outras coisas.



Uma forma duvidosa, um sobressalto.



Quiséramos um sítio, uma fronteira

de couro impenetrável, de impassíveis ossos,

ser um arnês com nervos, que pensa e não imagina,

algo sério e seguro sobre a pele do mundo.



Eu. Eu, sobretudo. Eu insensível,

eu na terra, na água, incrustado no ar,

eu sem sombras, sem sonho, sem fadiga,

eu a minha forma inventada até à morte.




Carlos Barral, em El Grupo Poetico de los Años 50

O CÉU ENVENADO



Meus filhos, as chuvas deste outono

vão ser, outra vez, doces e amáveis.

Mas não vos molheis muito: ninguém sabe

o que se passa com os seus átomos feridos.

Pelos vistos, a palavra do futuro

num mundo feliz e livre, obriga

agora a este veneno nas vossas medulas.

Perdoem-nos, a mim e à vossa mãe,

que nos quisemos quando começavam já

a ocorrer estas coisas sobre a terra.







SENSATEZ



(…Porque, en amor, locura es lo sensato.)

A.    M.



É inútil que teu e eu prediquemos

sensatez aos meninos. Adivinham

que não vivem por nada sério, senão

porque o poeta, esse, ainda estudante,

enamorou-se por uma rapariga inerme

e rebelde perante o mundo, sem projectos

deixando-se viver… E agora não somos

um bom exemplo; sem dúvida se nos nota

que aquele amor nos cresce de ano para ano,

e que se trabalhamos, bem formais,

é para defender a nossa paixão.




José Maria Valverde, em El Grupo Poetico de los Años 50

O PENSADOR


Por vezes,
quando centra
a sua atenção nas coisas mais sublimes,
surpreende-o a conta do leiteiro.

A que leite se refere,
caro amigo?

Levanta
os seus olhos
até ao nível tão claro dos outros,
tão seguros e certeiros,
enérgicos, sem hesitar.

De que leite pode ser:
da bebida.
Quinze litros em junho,
doze em maio,
dezasseis em abril,
todo o esforço
da minha complexa equipa de ruminantes,
os resultados da minha brilhante alquimia
nos tubos de ensaio dos seus úberes:
o sal que provoca sede, a água que aumenta
a secreção do branco e tíbio líquido,
de dinheiro em caixa,
de um negócio próspero.

Como é verdade,
e nada se lhe oculta,
ele tem que procurar nos seus bolsos,
e encontra apenas chaves,
e um lenço,
e uma carta amarrotada,
e…

Volta na segunda.

Procurará pensar noutras coisas
ou beberá mais água no futuro.


Angel Gonzalez, em El Grupo Poetico de los Años 50

Procurar saber se a infância foi um paraíso ou um inferno importa menos que o método de conhecimento que nos guie pelos paraísos infernais da infância. De todos os métodos de conhecimento sobre a matéria, como normalmente ocorre em matéria de conhecimento, a poesia oferece a certeza mais acertada e, acima de tudo, aponta para o campo do inefável. Purificada a nostalgia, filtrada a narração, refreado o discurso, reordenada a evocação, higienizado o sentimento, ressuscitada a música, encontraremos apenas o poema (o talento poético) como forma plausível de recriação do tempo que passou. No actual estado das ciências, é forçoso reconhecê-lo: nenhuma como a Poesia está tão avançada, ou se encontra tão apta, para amestrar a besta temporal.

Todo o acto poético é individual. Todo o acto poético constitui a destruição criativa do recebido.

Juan Garcia Hortelano, em El Grupo Poetico de los Años 50

Sabotagem

Quando a ficção pode ser um reflexo da coragem possível, mas só de um modo que procura outro tipo de hospedagem, um modo sugestivo na procura de uma forma ainda mais consequente, prática concreta.
Para os mais incautos, temos o Estado e o Capitalismo de Estado, o que está errado rima por interposição e estalinismo empresarial, pois claro. Isso e ripostar. Tenho cada vez mais sede e frustrações não me faltam. Façam das pobres (em demasiados sentidos) pessoas inevitáveis diabos e escolham.