Bebe
Bebe como o princípio de um monte
como se houvesse cavalo
por onde fôssemos
mais lentas mais
e mais pousadas

Bebe
que o vinho é um degrau ao sol
e a vinha é bela.

*

Todos dormiam e eu
ia colhendo o teu corpo a dedo
passando o teu corpo
a dente fino
como se todas as mesas me fossem permitidas
e todos os enxovais
e toda a escuridão

E lembro-me de atravessar os teus olhos
com aquele receio adolescente
de perfurar algum sonho.

*

Tu és tão humano
tão exactamente humano
e ainda assim
tão belo.


Catarina Nunes de Almeida, em Marsupial

REGRAS DO ESQUECIMENTO

Não esqueças sobretudo a armadura
da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.

Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras.

Não esqueças sobretudo de olhar devagar.



ETERNO OUTONO

Estou com a idade pousada nas mãos.
Explico-me com dedicação aos berços fundos
onde cada coisa dorme o seu medo de morrer.

Há na tristeza um perigo de terminar:
o eterno outono parece belo
a quem perdeu todas as sementes.

Pergunta-se um nome e ninguém responde.
Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?


Vasco Gato, em Imo

Pois


Não há necessidade de longas viagens pelo mundo para nos convencermos de que o mundo é rico, cheio de beleza e de segredos. Tudo o que se crê descobrir viajando de um continente para outro, como eu fiz, vem ao encontro das recordações e das impressões de infância.

Maurice Genevoix, em Terno Bestiário

2 em 1


O que pode existir de mais estável do que o nada?

Italo Calvino, em Palomar



numa embriaguez de liberdade que, em toda a verdade, me tornava quase selvagem.

Maurice Genevoix, em Terno Bestiário