BebeBebe como o princípio de um montecomo se houvesse cavalopor onde fôssemosmais lentas maise mais pousadasBebeque o vinho é um degrau ao sole a vinha é bela.*Todos dormiam e euia colhendo o teu corpo a dedopassando o teu corpoa dente finocomo se todas as mesas me fossem permitidase todos os enxovaise toda a escuridãoE lembro-me de atravessar os teus olhoscom aquele receio adolescentede perfurar algum sonho.*Tu és tão humanotão exactamente humanoe ainda assimtão belo.Catarina Nunes de Almeida, em Marsupial
REGRAS DO ESQUECIMENTONão esqueças sobretudo a armadurada noite,a aspereza das estrelasquando os olhos são recentese a gravitação é como um podersucinto nas mãos.Não esqueças sobretudo como os cereaislavram os campos estafados, destilamprodígio pelos sulcos da memória,oferecem-te uma vida maiorem troca do saldas pálpebras.Não esqueças sobretudo de olhar devagar.
ETERNO OUTONOEstou com a idade pousada nas mãos.Explico-me com dedicação aos berços fundosonde cada coisa dorme o seu medo de morrer.Há na tristeza um perigo de terminar:o eterno outono parece beloa quem perdeu todas as sementes.Pergunta-se um nome e ninguém responde.Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?
Vasco Gato, em Imo
Pois
Não há necessidade de longas viagens pelo mundo para nos convencermos de que o mundo é rico, cheio de beleza e de segredos. Tudo o que se crê descobrir viajando de um continente para outro, como eu fiz, vem ao encontro das recordações e das impressões de infância.Maurice Genevoix, em Terno Bestiário
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O que pode existir de mais estável do que o nada?Italo Calvino, em Palomarnuma embriaguez de liberdade que, em toda a verdade, me tornava quase selvagem.Maurice Genevoix, em Terno Bestiário
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