O curriculum vitae de uma elite, elevado a paradigma, é praticamente inalcançável, não obstante serve de matriz para as próximas gerações, que não podem ignorá-lo, obrigando-as a exercícios miméticos.


Nesses exercícios a figura do treinador é indispensável. Sloterdijk identifica cinco tipos de treinadores espirituais que tentam, a princípio, mostrar que caminhos surreais e aparentemente impossíveis são realizáveis. Eles são: o guru da tradição bramânica-hinduísta, o mestre da doutrina budista de iluminação, o apóstolo ou abade como imitadores de Cristo, o filósofo na condição de testemunha da busca da verdade e o sofista como mestre da arte de viver. Além disso, surgiram treinadores e instrutores de cunho mais pragmático ou artístico, que perderam sua santidade porque já passaram pela estandardização e popularização. Eles são mestres de uma profissão artesanal, professores acadêmicos, professores comuns e escritores, dedicados à causa do esclarecimento, ou, como no caso do atletismo futebolístico, “técnicos” mesmo. Sloterdijk atribui aos exercícios monásticos, sob orientação de um “apóstolo”, e à orientação dos aprendizes pelos mestres de diversas profissões artesanais o papel que Max Weber atribuiu à ética protestante: de ser o fator principal e responsável pelo deslanchamento da economia capitalista.



Se queremos poder, a dada altura teremos de difundir ficções. Se queremos conhecer a verdade sobre o mundo, a dada altura teremos de renunciar ao poder. Teremos de reconhecer coisas  –  as origens do poder, por exemplo – que enfurecerão adversários, afastarão seguidores ou perturbarão a harmonia social. Não há nada de místico nesse fosso entre verdade e poder. Para o testemunhar, basta procurar alguém branco, anglo-saxão e protestante e confrontá-lo com a questão da raça, ou então um israelita comum e falar-lhe sobre a ocupação, ou tentar conversar com um homem qualquer sobre patriarcado.

Yuval Noah Harari, em 21 Lições para o Século XXI