Dar um erro ortrográfico, entregá-lo ao leitor como uma
oferenda dos Deuses, pode ser, pois claro, um problema, mas apenas se
comprometer o significado da frase ou do texto. De resto, se for apenas mero
problema fonético ou algo do género, nada de mais. Quem esquece isso, quem não
vê no erro ortográfico um simples grão de areia que se desfaz na engrenagem, é
mero preciosista que aprendeu a rezar demasiado bem na era da técnica, incapaz
de aceitar uma mísera heresia.
HÁ
NAVIO MORTO NA CIDADELA
Há
navios mortos na cidade velha
Uma
criança atravessa a ilha entre tambores
O
arbusto da mão cheio de terra
E
coloca as sementes perto das violas
Duas
crianças contornam a boca da ribeira
Com
um canto de galo na veia cava
E acordam
Com
o nó dos dedos
A
proa dos rostos
De
remos mortos no ocidente
Três
crianças dobram
os degraus da comarca E
Arrancam
da carne
As âncoras do achamento
As naus da descoberta
Corsino Fortes
CANÇÃO
DA FRUTA AMARGA
Às
seis da tarde
Dominga
foi esperar
comboio
do Bungo
mas
Beto não chegou
Esperou
na soleira ao frio
sob
a lâmina azulada da noite
acordada
‘té de manhã
mas
Beto não chegou
Até
que Zefa
que
sempre vendera fruta amarga
trouxe
ela mesma a notícia:
Beto
caíra esmagado
no
porão
do
navio holandês
João-Maria
Vilanova
em
Língua de Sal
"em uma sociedade governada por valores adstritos ao Trabalho (a América capitalista talvez seja mais completamente governada por esses valores do que a Rússia comunista), o gratuito não é mais encarado – a maior parte das culturas antigas pensava de outro modo – como sagrado, para o Homem Operário; o lazer deixou de ser sagrado, passou a ser só uma pausa no trabalho, um tempo para o relaxamento e os prazeres do consumo. Assim sendo, quando tal sociedade pensa no gratuito, caso o faça, é sempre para colocá-lo sob suspeita – artistas não trabalham, portanto provavelmente são uns parasitas preguiçosos; ou, na melhor das hipóteses, encara-o como trivialidade – escrever poesia ou pintar é um inócuo passatempo privado."
W. H. Auden, em O poeta & a cidade
"Nesta civilização da máquina, impessoal e hiperdisciplinada, tão orgulhosa de sua objectividade, a espontaneidade assume frequentemente a forma de atos criminais e a faculdade criadora encontra sua principal válvula de escape na destruição."
L. Mumford, citado em Poesia & Utopia, por Carlos Felipe Moisés
L. Mumford, citado em Poesia & Utopia, por Carlos Felipe Moisés
Esperança Parasitária
Há
nisto do viver, ou de
sobreviver,
algo que faz de nós,
ruminantes,
o terreno baldio
onde
crescem ervas
que
são afinal comestíveis.
O
desalento, como tufos verdejantes,
é
apenas mera sombra
de
uma esperança parasitária.
Quanto
mais nos limitam os gestos
mais
propício o ensejo de mastigar e cuspir
na
face, nunca no focinho.
Esquecer
isto,
fazer
da linguagem o artifício de uma lâmina
carregada
de ferrugem,
cordel
cravado dentro do umbigo,
deixa
na boca a persistência do cotão
e
no silêncio comparticipante
o
avesso de uma terra sem raízes.
Viver
é lembrar os vivos,
mesmo
não lhes dirigindo a voz aos pés.
Apenas
o cuspo que goteja.
Crescem
ervas entre papoilas e japoneiras,
de
flores (casca de banana) de poetas,
escorregadias,
e permanecendo estas sem nome,
certeiras,
querem apenas abalroar
gigantes
gestos viscerais sem escrúpulos.
Esquecer
e lembrar. A língua,
transubstanciada
afta
sobre
a submissão ferida dos dedos,
enquanto
afecção, artifício afectante.
"o papel da poesia não é só comover e entreter, mas também educar, é educar enquanto modo de ver, no encalço da efetiva construção do conhecimento, como diriam os cientistas-pedagogos de hoje, e não enquanto mera transmissão de conhecimento convertido em fórmula estagnada."
Carlos Felipe Moisés, em Poesia & Utopia
Somos o fazemos com o tempo, ou somos o que o tempo faz connosco? O que te interessa não é tanto encontrar uma resposta, mas abrandar o tempo.
(...)
O exílio - mal-entendido entre a existência e as fronteiras - é uma ponte frágil entre imagens.
(...)
Aqui nascemos, junto ao bocal deste poço, como a malva, a chicória-brava e a arruda.
(...)
A erva, mais forte do que tu e eu, cresce-te no túmulo e não sei se devo lamentar, pois a vida é uma viúva dançante que se interessa apenas por aquilo de que precisa.
(...)
A paz esteja em ti no dia em que nasceste e no dia em que ressuscitaste nas folhas da árvore.
Mahmoud Darwich, em Na presença da ausênsia
(...)
O exílio - mal-entendido entre a existência e as fronteiras - é uma ponte frágil entre imagens.
(...)
Aqui nascemos, junto ao bocal deste poço, como a malva, a chicória-brava e a arruda.
(...)
A erva, mais forte do que tu e eu, cresce-te no túmulo e não sei se devo lamentar, pois a vida é uma viúva dançante que se interessa apenas por aquilo de que precisa.
(...)
A paz esteja em ti no dia em que nasceste e no dia em que ressuscitaste nas folhas da árvore.
Mahmoud Darwich, em Na presença da ausênsia
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