Heresia


Dar um erro ortrográfico, entregá-lo ao leitor como uma oferenda dos Deuses, pode ser, pois claro, um problema, mas apenas se comprometer o significado da frase ou do texto. De resto, se for apenas mero problema fonético ou algo do género, nada de mais. Quem esquece isso, quem não vê no erro ortográfico um simples grão de areia que se desfaz na engrenagem, é mero preciosista que aprendeu a rezar demasiado bem na era da técnica, incapaz de aceitar uma mísera heresia.

HÁ NAVIO MORTO NA CIDADELA

Há navios mortos na cidade velha

Uma criança atravessa a ilha entre tambores
O arbusto da mão cheio de terra
E coloca as sementes perto das violas

Duas crianças contornam a boca da ribeira
Com um canto de galo na veia cava
                                              E acordam

Com o nó dos dedos
A proa dos rostos
De remos mortos no ocidente

Três crianças dobram
                       os degraus da comarca E
Arrancam da carne
                        As âncoras do achamento
                        As naus da descoberta


Corsino Fortes



CANÇÃO DA FRUTA AMARGA

Às seis da tarde
Dominga foi esperar
comboio do Bungo
mas Beto não chegou

Esperou na soleira ao frio
sob a lâmina azulada da noite
acordada ‘té de manhã
mas Beto não chegou

Até que Zefa
que sempre vendera fruta amarga
trouxe ela mesma a notícia:
Beto caíra esmagado
no porão
do navio holandês


João-Maria Vilanova

em Língua de Sal
Con la expresión alta cultura descafeinada lo que pretendo es ofrecer una forma dentro de la cual situar el proceso altamente complicado, hasta rocambolesco, consistente en la desactivación de todo conflicto cultural bajo la aparente –y paradójica– manera de extremar ese conflicto. Es decir, desactivar la fuerza política de un conflicto cultural llevándolo al extremo, expandiéndolo, pero vaciándolo de gesto político más allá de lo institucional. Digamos que es la actualización del conflicto entre cultura y poder. Es una táctica común a todo el proceso de transformación cultural vinculado al capitalismo en su fase neoliberal, lo que en un libro anterior llamé activismo cultural neoliberal. Pero lo curioso es el que el conflicto sigue estando ahí, y el elemento radical se mantiene. Llevándolo al terreno personal, me permito poner un ejemplo. Recientemente me ocurrió que una entrevista que iba a salir en un medio nacional quedó sin publicar simplemente por el hecho de apuntar en ella que el Banco Santander, la Fundación Botín y otras han vaciado por completo de sentido crítico, transformador, todo elemento cultural, creativo, afectivo. Usan el arte con la finalidad de reforzar su discurso reaccionario disfrazado de bondad creativa. Algo así de simple y fácil de comprobar provoca que una entrevista no se publique en la sección de Cultura de un diario nacional con “supuestos tintes progresistas”. Esa es la relación entre cultura y poder. Desde su perspectiva la cultura ha de ser un espacio de consenso, no de conflicto. En la cultura, parece apuntarse, no puede haber ortigas, aunque sin ortigas no hay paisaje, y necesitamos paisaje, y necesitamos ampliar ese paisaje.

Alberto Santamaría, em entrevista
"em uma sociedade governada por valores adstritos ao Trabalho (a América capitalista talvez seja mais completamente governada por esses valores do que a Rússia comunista), o gratuito não é mais encarado – a maior parte das culturas antigas pensava de outro modo – como sagrado, para o Homem Operário; o lazer deixou de ser sagrado, passou a ser só uma pausa no trabalho, um tempo para o relaxamento e os prazeres do consumo. Assim sendo, quando tal sociedade pensa no gratuito, caso o faça, é sempre para colocá-lo sob suspeita – artistas não trabalham, portanto provavelmente são uns parasitas preguiçosos; ou, na melhor das hipóteses, encara-o como trivialidade – escrever poesia ou pintar é um inócuo passatempo privado."

W. H. Auden, em O poeta & a cidade
"Nesta civilização da máquina, impessoal e hiperdisciplinada, tão orgulhosa de sua objectividade, a espontaneidade assume frequentemente a forma de atos criminais e a faculdade criadora encontra sua principal válvula de escape na destruição."

L. Mumford, citado em Poesia & Utopia, por Carlos Felipe Moisés

Esperança Parasitária



Há nisto do viver, ou de

sobreviver, algo que faz de nós,

ruminantes, o terreno baldio

onde crescem ervas

que são afinal comestíveis.

O desalento, como tufos verdejantes,

é apenas mera sombra

de uma esperança parasitária.

Quanto mais nos limitam os gestos

mais propício o ensejo de mastigar e cuspir

na face, nunca no focinho.



Esquecer isto,

fazer da linguagem o artifício de uma lâmina

carregada de ferrugem,

cordel cravado dentro do umbigo,

deixa na boca a persistência do cotão

e no silêncio comparticipante

o avesso de uma terra sem raízes.



Viver é lembrar os vivos,

mesmo não lhes dirigindo a voz aos pés.

Apenas o cuspo que goteja.

Crescem ervas entre papoilas e japoneiras,

de flores (casca de banana) de poetas,

escorregadias, e  permanecendo estas sem nome,

certeiras, querem apenas abalroar

gigantes gestos viscerais sem escrúpulos.



Esquecer e lembrar. A língua,

transubstanciada afta

sobre a submissão ferida dos dedos,

enquanto afecção, artifício afectante.
"o papel da poesia não é só comover e entreter, mas também educar, é educar enquanto modo de ver, no encalço da efetiva construção do conhecimento, como diriam os cientistas-pedagogos de hoje, e não enquanto mera transmissão de conhecimento convertido em fórmula estagnada."

Carlos Felipe Moisés, em Poesia & Utopia


Somos o fazemos com o tempo, ou somos o que o tempo faz connosco? O que te interessa não é tanto encontrar uma resposta, mas abrandar o tempo.

(...)

O exílio - mal-entendido entre a existência e as fronteiras - é uma ponte frágil entre imagens.

(...)

Aqui nascemos, junto ao bocal deste poço, como a malva, a chicória-brava e a arruda.

(...)

A erva, mais forte do que tu e eu, cresce-te no túmulo e não sei se devo lamentar, pois a vida é uma viúva dançante que se interessa apenas por aquilo de que precisa.

(...)

A paz esteja em ti no dia em que nasceste e no dia em que ressuscitaste nas folhas da árvore.


Mahmoud Darwich, em Na presença da ausênsia