Electrificantes Fundações

Quando percebo que os nossos melhores pensadores deixaram de o ser por passarem a trabalhar com os fios da electricidade directamente ligados ao cérebro, como um curto-circuito auto-imposto para canalizar desse choque uma sinergia que, apreendida pelos outros, acreditam ser, de certo modo, uma nova potência - por descuido ou erro da cálculo, amnesicamente selectivos - percebo também que de ideias revolucionárias está o mundo cheio. Ou seja, tais pensadores, parece-me, prezam então a ideia para desprezar os actos, deixando de lado os perpetuados pela história para emulações, dissecações, aparatos, etc. Para representações românticas dignas de série televisiva ou mau cinema, deviam já agora perceber que não é preciso tanto.
Las ciudades brillaban tan negras como el caviar.

Menno Wigman
enquanto existir medo entre nós, apodreceremos como as flores nos pântanos.

Máximo Gorki, em A Mãe
Pavel procurava viver como os outros. Fazia aquilo que era próprio de um rapaz da sua idade; comprou um harmónio, uma camisa de peitilho engomado, uma gravata berrante, galochas, capa de borracha e uma bengala. Assemelhava-se, assim, a todos os jovens da sua idade. Ia às reuniões do bairro, aprendia a dançar a quadrilha e a polca. Ao domingo entrava em casa embriagado. Na manhã seguinte, claro, doía-lhe a cabeça, a febre atormentava-o, o rosto mostrava-se pálido e desfigurado.

Certo dia, a mãe perguntou-lhe:

- Então, divertiste-te muito, ontem à noite?

Respondeu com sombria irritação:

- Aborreci-me bastante! Os meus companheiros são umas máquinas... Prefiro ir antes à pesca ou comprar uma espingarda.

Trabalhava com vontade e aplicação; nunca era multado nem faltava. Mas andava triste. Os seus olhos azuis, grandes como os da mãe, possuíam uma expressão de desassossego e descontentamento. Não comprou a espingarda nem foi à pesca, mas abandonou o caminho que os seus companheiros levavam, frequentava cada vez menos as reuniões e, embora saísse aos domingos, voltava para casa em seu perfeito juízo. Pelágia observava-o sem dizer qualquer palavra e via o rosto de Pavel tornar-se cada vez mais fraco, o olhar sempre mais sério e os lábios a fecharem-se numa aguda severidade. Parecia sofrer de qualquer doença ou cólera contagiosa. A princípio os companheiros visitavam-no, mas depois deixaram de aparecer. A mãe encarava com prazer que o filho não seguia o caminho dos outros rapazes da fábrica. No entanto, quando verificou certa obstinação em se afastar da torrente da vida monótona, a sua alma encheu-se de uma vaga inquietude.

Pavel trazia livros para e, a princípio, procurava lê-los às escondidas. Por vezes, copiava alguns trechos em cadernos escolares.

- Tu não andas bem, filho? - perguntou-lhe a mãe.

- Ando, sim, mãe, ando bem - respondeu Pavel.

- Mas estás tão magro - lamentou ela.

E Pavel ficou calado. Aliás, falavam pouco desde há algum tempo. De manhã, Pavel bebia o chá e dirigia-se para o trabalho. Ao meio-dia, vinha almoçar e apenas trocavam à mesa algumas vagas palavras, quase sem importância. E a seguir desaparecia até à tarde. Terminado o dia, limpava-se cuidadosamente, jantava e lia os livros que trazia. A mãe sabia que ele passeava pela cidade, que ia ao teatro. Parecia-lhe que, quanto mais o dias passavam, menos contacto tinha com o filho. E, ao mesmo tempo, notava que de dia para dia era maior o número de novos termos, incompreensíveis para ela, que Pavel utilizava na sua linguagem, fazendo desaparecer uma linguagem grosseira que dantes era normal na sua maneira de falar.

Passava a dar mais importância ao seu asseio e até à limpeza do fato; movimentava-se com mais ligeireza e facilidade. Tornou-se mais simples na aparência e até mais delicado; agora preocupava-se com a vida da mãe. Tratava-a de uma maneira diferente e até a ajudava a varrer o soalho, fazendo tudo isto sem qualquer ostentação. Mas ninguém fazia isso naquele bairro operário...

- Para que servem esses livros, Pavel?

Levantou a cabeça, observou atentamente a mãe e, com tranquilidade, respondeu-lhe:

- Procuro saber a verdade.

A voz soou em tom baixo, mas firme. Nos seus olhos brilhava um obstinado desejo de alguma coisa. Pelágia compreendeu que o filho se dedicasse ao que quer que fosse de misterioso ou terrível. Tudo lhe parecera sempre inevitável. Habituara-se desde sempre a submeter-se sem reflectir e, por isso, desatou a chorar, sem encontrar palavras no seu coração angustiado pela dor e o sofrimento.

- Não chores! - pediu Pavel, carinhosamente.

Mas a mãe julgava que ele lhe dizia adeus. Por isso, Pavel continuou:

- Reflecte! Que vida é esta que levamos? Tens quarenta anos e poderás dizer-me se tens vivido a sério, sem problemas? O pai batia-te sempre.. Compreendo agora que era em ti que ele se vingava da vida que o faziam aguentar. Trabalhou sem descanso durante trinta anos. Começou na altura em que o edifício da fábrica não tinha ainda senão dois prédios - e hoje tem sete! As fábricas crescem, sim, e nós morremos a trabalhar para elas.

Máximo Gorki, em A Mãe 
«Viver é muito perigoso», assinalou Guimarães Rosa. Pois. Mas quem não vive, morre.

Nuno Bragança, na nota de autor de Directa
¿Existe un mercado literario? No sé, me parece un oxímoron, existe una red de intereses ligados a la cultura de masas que hacen circular los libros. Me parece que lo que hay es una manipulación de la literatura por la cultura de masas, que produce una serie de efectos nuevos, que los editores están haciendo transas con la cultura de masas y que los grandes multimedios, como se dice ahora, también compran editoriales.

Ricardo Piglia, em Crítica y Ficción

A economia que predominou durante o século XX teve origem em analogias e metáforas da mecânica clássica, da física da primeira metade do século XIX. A analogia com a mecânica tem a ver com a utilização da linguagem da física e com metáforas que representam a ideia de que nas transações de mercado ocorre uma troca de algo que pode ser definido como uma energia psíquica ou social. A estrutura analítica do paradigma dominante na economia é baseada na metáfora da conservação de energia. A metáfora da física pré-entropia ou mecânica, transposta para a economia, não afeta apenas o discurso, mas principalmente a estrutura e a substância da disciplina



Se do ponto de vista formal a economia não se separou da física do século XIX, a física moderna afastou-se da economia. A proximidade formal entre a economia e a física mecanicista não garantiu que o estudo do processo econômico fosse permeado pela atenção às relações biofísicas com seu entorno. Ao contrário, o paradigma mecânico na economia teve como importante sintoma o não reconhecimento dos fluxos de matéria e energia que entram e saem do processo econômico, e muito menos o reconhecimento da diferença qualitativa entre o que entra e o que sai nesse processo.



O comércio global é governado por uma série de regras e acordos. Além das regulamentações da OMC, existem pelo menos 420 acordos comerciais bilaterais, assim como mais de 2.900 acordos bilaterais de investimentos. Um elemento importante é o “sistema de resolução de controvérsias investidor-Estado”, que contém cláusulas abrangentes que concedem aos investidores estrangeiros direitos exclusivos para desafiar políticas governamentais e decisões judiciais, prejudicando efetivamente o Estado de direito. Permite ainda que as empresas processem um governo estrangeiro signatário do tratado; elas podem reivindicar indenizações se o governo impor um novo regulamento que diminua os lucros futuros esperados. As empresas podem, portanto, prejudicar os objetivos das políticas públicas, como aqueles relativos à segurança alimentar, à saúde, à proteção ambiental e aos direitos dos trabalhadores. Este mecanismo tem sido amplamente criticado pela sociedade civil e por alguns partidos políticos. O número destes casos disparou de alguns poucos em 1995 para pelo menos 767 reclamações acumuladas até o início de 2017.

Estábamos hablando tranquilamente como grillos

de um poema de Gellu Naum
a fruição da arte só existe se houver uma verdadeira discussão e reflexão sobre o que se viu e como se viu. O prazer vem daí, não é só consumir

Paulo Branco, em entrevista

Conhecendo o autor e as actividades dele (...), posso eu, (devo) constranger-me a uma imparcialidade impossível por falsa? (...) fazer tábua-rasa da sua conduta, naquilo que nos opusemos (...) se as atitudes que os vi tomar forçosamente abandalharam as suas obras? (...) DIZ-ME QUEM ÉS E COMO AGES, DIR-TE-EI O QUE ESCREVES. Queriam (...) que (...) fizesse friamente a dissecação retórica e inútil da polivalência significante (...), da libertação metafórica, do gosto pelo conceptual (...), do teor poético (...). Tiro-lhes retrato à la minuta (...) Saiu fotomaton? Paciência. Foi (...) da caricatura em que se tornaram (...) de homens, de escribas (...). A isto chamo crítica de identificação.

 Luiz Pacheco, em Crítica de Identificação
Una sociedad en la que está prohibido el aburrimiento, matriz de todos los inventos, madre de todos los “vicios”, es una sociedad en peligro de muerte. Más aún si se repara en el hecho de que esos procedimientos materiales de fuga organizada –del turismo a las nuevas tecnologías– erosionan al mismo tiempo la conciencia y el planeta.

En otro de mis libros hablaba del turismo como de una “mirada caníbal”, la expresión más banal, más placentera, más inocente de esa prolongación del aparato digestivo en que hemos convertido la reproducción de la vida en Occidente. Hay motivos ecológicos para comer menos carne; y hay motivos ecológicos, culturales y políticos para viajar menos. Desde un punto de vista material, el planeta no puede permitirse 90 millones de vuelos al año; y no hay que olvidar que, mientras son unos pocos millones de personas las que se desplazan del sur al norte para buscar trabajo o huir de la guerra –y tropiezan con todo tipo de obstáculos– son 1000 millones las que lo hacen del norte al sur, sin que nadie las detenga, para hacerse una fotografía. Este segundo tipo de desplazamiento, destructivo ecológicamente hablando, es difícilmente justificable en términos culturales: la industria del turismo convierte el desplazamiento en lo contrario de un “viaje”; lo contrario –es decir– de una experiencia individual transformadora. Los inmigrantes y refugiados son individuos y viajan; los turistas forman colectivos abstractos protegidos por pasaportes privilegiados y se limitan a consumir experiencias manufacturadas.

No hay amor sin cuerpo y sí, por desgracia, cuerpos desprovistos de amor y algunos incluso desprovistos de vida sexual. Creo que buena parte de las desgracias del mundo y de las relaciones de poder injustas se nutren de este dolor de los cuerpos.

Santiago Alba Rico, em entrevista
Viver de e abismado pela ficção - procurando saber como portas que se abrem para a realidade mais vasta, permitindo da percepção um entendimento aberto de par em par - pode parecer perigoso. Ainda assim, é só um dos muitos modos de nos sentirmos mais vivos, despertos. Negar o poder da ficção, é portanto apenas negar a amplitude de todos os gestos - possíveis e consequentes. É negar a realidade amordaçando-a, ocultando-a. Não querer ver e não querer compreender.