a definição mais elementar, mas decisivamente convincente, da cultura: «O que é a cultura? Formação da atenção.»


Roberto Calasso, citando Simone Weil

escritor que consiga compreender melhor e descrever com maior precisão os fenómenos políticos que abarcam milhões de pessoas é considerado não só um traidor, como um desertor e um intruso, tanto pelos profissionais da política como pelos da literatura. Quando se deseja o sucesso, ser um verdadeiro escritor político não é conveniente, visto que acabará por não ser considerado nem um verdadeiro escritor nem um verdadeiro político.

Alfonso Berardinelli, em Direita e esquerda na literatura

a opinião é uma linguagem racional – e a racionalidade não implica consciência

Roberto Calasso, em Os quarenta e nove degraus

Outrora, as pessoas nasciam vivas e a pouco e pouco iam morrendo. Agora nascem mortas – algumas conseguem tornar-se, a pouco e pouco, vivas.

Roberto Bazlen

Musa de pêlo no peito



Eu sou a musa de pêlo
no peito. Discordantes,
alimentam-se da retórica
da minha carne
e bebem-me o sangue de uma verdade
construída pela memória
arterial – de fluxos
e refluxos, contradições.

Vendendo psicoses,
aproximo a ficção da mente
até ao limiar
do acreditado, a mudança;
sofrendo com todos
porque sofro com nenhum.

Carta aberta a jornalistas, opinadores e lacaios, inocentes ou não


A actualidade jornalística, para sobreviver, já sabemos, ou basta parar para perceber: vive dos escândalos. Hoje, mais do que no tempo em que os jornais em formato de papel vendiam como pãezinhos quentes, as notícias circulam como vírus, os temas pegam e são esticados até ao limite. Escândalos políticos pululam como se não houvesse amanhã. E a política, convém assim perceber, deve ser entendida enquanto Estado e nunca como um conjunto de formas de organização social que dão corpo a uma sociedade. Tudo isto porque, para os mais atentos ou para os menos comprometidos (que também sabem o óbvio, que na política de Estado não faltam pessoas sem qualquer escrúpulo ético ou até moral) entender isso é esquecer o resto, ou ver apenas a face única do caso e, por conseguinte, esquecer a que mais pesa e mossas faz no equilíbrio ambiental, consequentemente social e vice-versa.


O cenário político criado pela comunicação social, que esta pretende criar e se vai criando, promete e não é pouco. À bolina da liberdade imprensa, mas só contra o Estado ou determinados indivíduos, esquecendo o jogo político como meio onde os interesses económicos e financeiros também pululam, à vista de todos, os lacaios dos jornais, das revistas, das televisões, dos grandes grupos de media, que muitas vezes enquanto justiceiros nem se dão ao trabalho de investigar as ligações dos grupos para que trabalham (talvez muitos achem até que trabalham só para uma única entidade e não para um grupo, para uma enorme teia de interesses) saem para a praça e toca, como cepos, a atirar a torto e a direito, mas mais para torto do que para direito.

Falam das ligações do Estado, espremem a classe política, a maioria dela tão merdosa quanto a empresarial, não podendo aliás as duas ser dissociadas (falta então descobrir, ou talvez não, qual o ovo e qual a galinha) e não percebem sequer que, com isso, desvitalizam mais a qualidade democrática e de informação do que o contrário.

A verdade para o caso, deixando os rodeios escritos, é uma entre muitas, e talvez só de fora se possa ver: escrever para grandes grupos de comunicação social é fomentar a estupidez e uma sociedade onde a sede de lucro, e de subsistência, claro, é mais importante do que manter ou procurar promover uma sociedade mais equilibrada, menos competitiva. O próprio conceito de jornalismo enquanto forma de justiça é aliás bem revelador: já não dá para perceber qual das duas formas é a menos parcial, se a justiça dos tribunais e estatal, se a dos próprios meios de comunicação social onde abundam políticos, ex-magistrados, malta formada em direito, etc.

Tendo a crer, pessoalmente, que tal como a galinha e o ovo, partindo a casca dum ou depenando a outra, vai dar ao mesmo. Tanto na base do Estado democrático, ou melhor, nas suas modalidades, como na base dos grandes grupos de comunicação social, o problema estrutural está nos fins que dão origem aos meios, nas pessoas como fins em si mesmos, acima de uma possível organização social onde os meios possam ser transparentes a fim de escrutinar o que pode ser mais certo ou mais errado, sem zonas sombrias.

Vejamos com um exemplo em concreto, com o qual carecendo de uma pesquisa mais detalhada ao órgão de comunicação onde li a notícia (afirmação de um céptico que até das suas competências dúvida e, acima de tudo, transparece também que nunca fiar os propósitos das notícias), espero ser revelador.

Decidi por motivos impressionistas já acima sugeridos, perceber quem está à frente do grupo Cofina. Percebi, desde logo, sem surpresas, que é malta de fundos de investimento, sociedades, indústria da pasta de papel, ligações a bancos duvidosos, o costume. Procurando um a um, embora a informação sobre os próprios diga, e pouco, mais respeito às movimentações empresariais e de interesse, cheguei a uma notícia em inglês que fala precisamente sobre todos eles, a uma empresa em que todos os órgãos de gestão são os mesmos da Cofina. Empresa de produção de pasta de papel que, possivelmente, não sou jornalista, não é esse o meu trabalho e nem sequer o propósito deste texto, está na origem de grandes cargas poluentes do rio tejo.

Escusado será dizer que fazendo uma pesquisa mais superficial dá logo para perceber que no que toca a jornais e revistas do grupo, tais descargas são notícia mas não deixam ver tudo, muito pouco, e de um modo bastante criterioso e velado, residual.

Na mesma notícia em inglês, de um jornal do algarve escrito em inglês, que pode ser um exemplo de bom jornalismo, convém dizer, ou de jornalismo de interesses, convém reforçar, fala de uma subida inesperada do limite legal permitido por parte do ministério do ambiente e, ainda assim, o nível das descargas estaria ou está, não sei, acima desse limite legal mais do que dobrado por, voilá!, um organismo do Estado.

Neste ponto da minha atabalhoada mas perceptível exposição, que é o mais importante, chega-se à tácita mensagem passada pela comunicação social, como um bicho papão: o Estado é mau e tem de ser reduzido ao mínimo. Porém, como já deixei transparecer acima, a lógica não é maniqueísta: não é o Estado mau e o Privado bom. Muito longe disso. Por comparação, das melhores formas de compreensão mas que ainda assim deixa a desejar, comparando o que nos dá o presente até onde a vista alcança, é bem melhor o Estado com as suas regalias abaixo do interesse de poucos, como acontece com a saúde e com a educação – só para referir duas áreas de negócio que não deveriam ser e estiveram, e estão, na ordem do dia, primeiro com o financiamento do ensino privado e agora com a saúde privada mais o bombardeamento urbanístico e paisagístico de hospitais da trofa, articuladores e ideológicos seguros de saúde nos programas televisivos da manhã, etc. – do que a sociedade de interesses promovida pelos meios de comunicação social: grandes grupos que procuram a superfacturação, pagam mal à maioria dos trabalhadores, pagam em termos percentuais muito menos impostos do que o resto dos cidadãos, isto quando não fogem com o dinheiro para paraísos fiscais, açambarcam tentaculares tudo o que sejam mecanismos de fazer dinheiro, o cérebro das pessoas e, claro (era aqui que queria chegar), fomentam um tipo de corrupção que está na base do histórico mau funcionamento do Estado: aliciamento e duplicidade dos quadros superiores deste, e dos que abaixo deles procuram e reconhecem esse tipo de ascensão social como via necessária.

Este tipo de mensagem subliminar, porém, não funciona apenas com a participação de actores directamente ligados aos meios de comunicação social. Gestores de outros grandes grupos, fundações de lavar as mãos, tudo junto, criam esta actualidade revolucionária que, não só a nível nacional, vai ebulindo. Penso que mais do que a tão badalada questão esquerda, direita, volver, que existe em quase todos os suportes possíveis de grupos de comunicação social para dar ideia de imparcialidade, a questão da imparcialidade e da já referida justiça não existe. A moral deste texto é clara: achar bom jornalismo atirar sempre para os mesmos de olhos vendados e mãos amarradas, é instrumentalizar o alvo ou por esquecimento ou por compromisso.