INCIDENTE CORPORAL
Surpreender o contorno da própria cabeça,
as extremidades do corpo que se ignoram
com simétrico empenho, o grunhido
do ouvido e do pulso num ponto do ar
e nos olhos fechados, assomando-se
na ponta almofadada dos sangues,
o perfil violeta do espectro
obstinado das janelas desistidas.
Uma súbita febre, um desacordo.
Pisar o solo rápido, fluente,
imóvel para os outros; e as suas cavidades
de secretos fragmentos, comovidas
inchando-se por debaixo e pelo corpo.
E estar a ponto de flutuar, ser leve
como um cacho de incontáveis peças
removido por alguém desde fora
que nos suspende entre as outras coisas.
Uma forma duvidosa, um sobressalto.
Quiséramos um sítio, uma fronteira
de couro impenetrável, de impassíveis ossos,
ser um arnês com nervos, que pensa e não imagina,
algo sério e seguro sobre a pele do mundo.
Eu. Eu, sobretudo. Eu insensível,
eu na terra, na água, incrustado no ar,
eu sem sombras, sem sonho, sem fadiga,
eu a minha forma inventada até à morte.
Carlos Barral, em El Grupo Poetico de los Años 50
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