Meritocracias e Profissionalismos
A característica do profissional não é nem o lucro, nem uma longa preparação, nem as tarefas delicadas, nem a condição social. Seus rendimentos podem ser baixos ou consumidos pelos impostos, sua preparação pode demorar semanas em vez de anos. Seu status pode ser comparado ao da profissão mais antiga da História. Melhor: é a autoridade que o profissional tem para tomar a iniciativa de definir uma pessoa como cliente, para determinar as necessidades dessa pessoa e para entregar a essa pessoa uma receita que a defina neste novo rol social. Ao contrário das prostitutas de antanho, o profissional moderno não é aquele que vende o que os outros dão grátis, é principalmente aquele que decide o que se deve vender e não se deve entregar gratuitamente.
Os profissionais exigem um monopólio sobre a definição de desvio de conduta e sobre suas soluções. Por exemplo: os advogados afirmam que somente eles têm competência e direito legal para dar assistência num divórcio. Se alguém descobre um método para um divórcio «faça você mesmo», vai se meter numa dupla complicação: se não for advogado, expõe-se à acusação de praticar sem licença; se é membro de um escritório de advocacia, pode ser expulso por falta de ética profissional. Os profissionais proclamam também um saber oculto sobre a natureza humana e suas fraquezas, saber que só eles podem aplicar com vantagem. Os coveiros, por exemplo, não se transformaram em membros de uma profissão por passarem a chamar-se empresários de pompas fúnebres, nem por obter diplomas escolares,nem por aumentarem os lucros, ou por se libertarem do odor que acompanha seu negócio quando um deles se elege presidente do Lions Club. Mas os empregados de pompas fúnebres formam uma profissão, dominante e inabilitante, a partir do momento em que têm força para conseguir que a polícia impeça o teu enterro se não tiveres sido embalsamado e encaixotado por eles. Em qualquer campo em que se possa imaginar uma necessidade humana, estes novos profissionais inabilitantes proclamam ser os especialistas exclusivos do bem público.
A transformação de uma profissão liberal em dominante é equivalente ao estabelecimento legal de uma igreja de estado. Os médicos transformados em biocratas, os professores em gnoseocratas, os agentes funerários em tanatocratas é algo que está muito mais próximo das «clerezias» subsidiadas pelo Estado do que as associacões comerciais. O profissional, como mestre da linha de moda da ortodoxia, atua como teólogo. Como empresário moral, atua no papel do sacerdote: com sua atuação, cria a necessidade para sua mediação. Como cruzado benefactor, atua no papel de missionário à caça de ovelhas transviadas. Como inquisidor, põe fora da lei o não-ortodoxo: impõe suas soluções ao recalcitrante que recusa reconhecer-se como problema. Esta investidura multifacetada, combinada com a tarefa de aliviar os inconvenientes específicos da condição humana, faz com que cada profissão seja análoga a um culto estabelecido. A aceitação pública das profissões tirânicas é essencialmente um fato político. Toda afirmação nova de legitimidade profissional significa que as tarefas políticas de legislar, a revisão judicial de casos e o poder executivo perdem algo de sua independência e de suas caracteristicas próprias. Os assuntos públicos passam das mãos de leigos escolhidos por seus semelhantes às de uma elite que se outorga seus próprios créditos.
O empobrecimento das palavras, o esgotamento da linguagem cotidiana e sua degeneração em terminologia burocrática equivalem, de maneira mais intimamente degradante, à degradação ambiental tão discutida. Não se pode propor mudanças possíveis nos planos, nas atitudes e nas leis se não nos fazemos mais sensíveis ao repúdio destes nomes errôneos que só ocultam a dominação. Quando aprendi a falar, falava-se de problemas somente nas matemáticas ou no xadrez, de soluções só quando eram salinas ou jurídicas, e necessitar se conjugava, mas quase não se usava como substantivo. As expressões «tenho um problema» ou «tenho uma necessidade» soavam loucas. Quando cheguei à adolescência, e Hitler buscava soluções, também se estendeu «o problema social». Descobriram-se «meninos problemas» com matizes sempre novos, entre os pobres, à medida que os trabalhadores sociais aprendiam a catalogar suas vítimas e a padronizar suas «necessidades». A necessidade, usada como substantivo, chegou a ser a forragem que engordou as profissões até a tirania. Assim se modernizou a pobreza. Os novos termos transformaram uma experiência pessoal e comunitária em assunto de técnicas: os pobres se fizeram necessitados.
Uma ilusão não é menos ilusão pelo fato de vir envolvida numa solução científica e não em dogmas religiosos.
Qualquer necessidade nova que se diploma profissionalmente na atualidade, traduz-se, cedo ou tarde, num direito. A pressão política para conseguir a promulgação de todos direito em lei gera novos empregos e mercadorias. Cada mercadoria nova degrada uma atividade que, até então, permitia à pessoa cuidar de si pelos seus próprios meios; cada novo emprego subtrai legitimidade ao trabalho feito até aqui pelo desempregado. O poder que as profissões têm para fixar as medidas do que há de ser bom, correto e realizado destorce o desejo, a vontade e a habilidade do homem «comum» para viver dentro de sua própria medida.
Ivan Illich, O direito ao desemprego criador, a decadência da idade profissional
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