HÁ NAVIO MORTO NA CIDADELA

Há navios mortos na cidade velha

Uma criança atravessa a ilha entre tambores
O arbusto da mão cheio de terra
E coloca as sementes perto das violas

Duas crianças contornam a boca da ribeira
Com um canto de galo na veia cava
                                              E acordam

Com o nó dos dedos
A proa dos rostos
De remos mortos no ocidente

Três crianças dobram
                       os degraus da comarca E
Arrancam da carne
                        As âncoras do achamento
                        As naus da descoberta


Corsino Fortes



CANÇÃO DA FRUTA AMARGA

Às seis da tarde
Dominga foi esperar
comboio do Bungo
mas Beto não chegou

Esperou na soleira ao frio
sob a lâmina azulada da noite
acordada ‘té de manhã
mas Beto não chegou

Até que Zefa
que sempre vendera fruta amarga
trouxe ela mesma a notícia:
Beto caíra esmagado
no porão
do navio holandês


João-Maria Vilanova

em Língua de Sal

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