Gabriel vende a sua biblioteca. Diz que está farto de literatura e que quer fazer dinheiro. A decisão deve ser simbólica, suponho: vender os seus livros não o vai tirar de muitas dificuldades. Compreendo que a sua situação nada tem de brilhante e que empregue uma porção considerável do seu tempo e da sua energia verbal a esbanjá-la. Trinta e quatro anos, inteligentíssimo, pouco dinheiro, poucas possibilidades estabelecidas de progresso. Conhece os meandros ocultos da vida prática com uma extrema lucidez e ao mesmo tempo é radicalmente inapto para a vida prática. Uma dessas pessoas – eu tenho-me por outra – que com os mesmos defeitos mas com menos qualidades teria funcionado melhor.
Jaime Gil de Biedma, o Retrato do artista em 1956
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