Musa ensina-me o cantoVenerável e antigoO canto para todosPor todos entendidoMusa ensina-me o cantoO justo irmão das coisasIncendiador da noiteE na tarde secretoMusa ensina-me o cantoEm que eu mesma regressoSem demora e sem pressaTornada planta ou pedraOu tornada paredeDa casa primitivaOu tornada o murmúrioDo mar que a cercava(Eu me lembro do chãoDe madeira lavadaE do seu perfumeQue atravessava)Musa ensina-me o cantoOnde o mar respiraCoberto de brilhosMusa ensina-me o cantoDa janela quadradaE do quarto brancoQue eu possa dizer comoA tarde ali tocavaNa mesa e na portaNo espelho e no corpoE como os rodeavaPois o tempo me cortaO tempo me divideO tempo me atravessaE me separa vivaDo chão e da paredeDa casa primitivaMusa ensina-me o cantoVenerável e antigopara prender o brilhoDessa manhã polidaQue poisava na dunaDocemente os seus dedosE caiava as paredesDa casa limpa e brancaMusa ensina-me o cantoQue me corta a gargantaSophia de Mello Breyner
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