CUMPLICIDADE DO VERÃO
Mal nos conhecíamos,
mas a infância
é cúmplice do verão:
vinhas do rio, das
manhãs
onde nadámos juntos e
subimos
aos freixos altos:
via-te
balouçar num ramo
frágil rindo,
ou saltar atrás das
rãs – o corpo nu
cravado nos meus olhos
como um espinho.
MORADA
A primeira casa não
era ainda a casa:
não chega a ser
morada.
Na outra, mais
pequena, onde ninguém
perguntava que idade
tinha
ou se o verão já
passara
ou o cão mordia,
a manhã estava à
janela.
Essa era a casa, o sol
onde ardia.
O SORRISO
Creio que foi o
sorriso,
o sorriso foi quem
abriu a porta.
Era um sorriso com
muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a
roupa, ficar
nu dentro daquele
sorriso.
Correr, navegar,
morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade, em
O Outro Nome da Terra
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