O GRITO CLARO
De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança
enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria
escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro
SÍLABAS
Sílabas.
O álcool de Dezembro é
frio e rouco.
O cigarro amarga. É um
cigarro clínico.
Sílabas.
Com sílabas se fazem
versos.
O tampo da mesa é
liso.
Uma colher é uma forma
complexa
familiar e deliciosa.
Um copo é nítido
como um criado sem
servilismo.
Uma mulher condensa-se
no olhar do poeta.
Um corpo. Duas
sílabas.
O dinheiro à justa. A
gola da gabardina
para tapar a nuca
e os ouvidos.
Sílabas.
UM OUTRO SOL, UM OUTRO
PÃO
Em vão acumulo. Em vão
se acumula.
Abri-me ao sol e
disse: Eis o sol
todos os dias
e cheguei a sentir o
sol das veias.
Árvore! gritaste.
Nunca se te abriu o
pão da mesa
um pão tão limpo
uns olhos de mulher de
água tranquila?
A PEDRA
A pedra é bela, opaca,
peso-a gostosamente
como um pão.
É escura, baça,
terrosa, avermelhada,
polvilhada de cinza.
Contemplo-a: é
evidente, impenetrável,
preciosa.
A CONSTRUÇÃO DO CORPO
Sempre a tentativa
nunca vã…
O equilíbrio musical
dos instrumentos,
a paciência do teu
pulso suave e certo,
o teu rosto mais largo
e a calma força
que sobe e que modelas
palmo a palmo,
rio que ascende como
um tronco em plena sala.
A tua casa habita
entre o silêncio e o dia.
Entre a calma e a luz
o movimento é livre.
Acordar a leve chama
veia a veia,
erguê-la do fundo e
solta propagá-la
aos membros e ao
ventre, até ao peito e às mãos
e que a cabeça
ascenda, cordial corola plena.
Todo o corpo é uma
onda, uma coluna flexível.
Respiras lentamente. A
terra inteira é viva.
E sentes o teu sangue
harmonioso e livre
correr ligado à água,
ao ar, ao fogo lúcido.
No interior centro
cálido abre-se a flor de luz,
rigor suave e óleo,
música de músculos, roda
lenta girando das
ancas ao busto ondeado
e cada vez mais ampla
a onda livre ondula
a todo o corpo uno,
num respirar de vela.
Sobre a toalha de
água, à luz de um sol real,
dança e respira,
respira e dança a vida,
o seu corpo é um barco
que o próprio mar modela.
em Antologia Poética


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