Ben entrou abrindo a braguilha, encarrapitou-se a mijar pela janela e em seguida entregou-se ao que tinha a fazer. Era um habilidoso, ensinado a insistir horas e horas com a expressão ausente e a exactidão tranquila de um trabalhador qualificado, quase belo. Debruçados sobre a cabeceira da cama, o tourinho primeiro e o tourinho segundo deixavam às vezes de fumar e esticavam o pescoço para captar melhor a destreza de um golpe de rins. Quando a mulher ficou satisfeita e deixou de gemer, Gerineldos olhou-nos com um sorriso de irmão mais novo

He’s the real toreador.

A cena fez-me pensar, enquanto a revivia contando-a aqui, no carácter vergonhoso – dito mais convencionalmente, na obscenidade – das funções corporais. Que o que é natural exija um notório esforço físico surpreende o espectador, e não falemos do sujeito, porque é incongruente. Para cúmulo, a possibilidade da impotência ou a do sentimento de medo estão sempre aí, como fantasmas. Há maior humilhação, troça mais sangrenta e dolorosa que a de uma fisiologia obstinada em negar-se a si mesma? E as posições, já por si violentas… Suprima-se a violência, suprima-se o esforço – a incongruência desaparece e com ela o carácter vergonhoso. Assim, sentados numa retrete ou acocorados sobre um palmo de terra, um e outro sexo sentimo-nos em igual desvantagem, do mesmo modo inermes; pelo contrário, que decisiva superioridade dos varões, que andamos pelo mundo providos de pipo, quando de urinar se trata! Tão simples e praticável, quase elegante. Mas com frequência num mictório público, os suspiros e os suores de algum senhor de idade que sofre de pedra nos rins me puseram na embaraçosa situação de quem se sente indiscreto. E não falemos da obscenidade da agonia, do trabalho de morrer de morte natural.

Pergunto a mim próprio se os animais de algum modo participam nesse nosso sentimento de incongruência. A expressão envergonhada dos cães ao cagar sempre me chamou a atenção e a cara de fingir-se distraídos que fazem quando praticam o coito.


Jaime Gil de Biedma, em Retrato do artista em 1956

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